sábado, 24 de outubro de 2009

Os afetos roubaram meu dicionário

I
Tenho olhos cinzas desde ontem, voltei marcado pela instabilidade dos afetos, descobri que a vida de palavras me enganou por 20 anos. Quis negar o corpo e suas vontades, me provaram que não se pode. A escrita do corpo, os sinais que ela deixa, que não se enxerga como também não se esquece, não podem ser traduzidos em palavras, não podem.

II
Nunca encontro a palavra certa, sou dilacerado por sensações que me acorrentam a um estado de espírito inominável. Não quero me resumir numa palavra, talvez apenas não conheça as que me libertariam dessa prisão, talvez não devesse querer tais palavras, é que sou feito disso, eu sou palavras... me dizem palavras, leio palavras, falo palavras... como posso ser palavras se elas não me libertam? Como alguém pode me entender? Que palavras eu penso que sou? Elas não libertam...

III
Quero que me falem, que me digam o conceito da palavra amor. Quero que prendam-na, perguntem sobre seus limites, sobre o que ela quer de nós, porque é impronunciável para alguns e porque parece soar sem importância para outros. Me digam, me falem e talvez mesmo assim nunca entenda do que se trata, meu corpo não consegue fazer tal distinção. Ele não compreende.

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