domingo, 26 de setembro de 2010

O outro em nós

Pela fresta da janela, vejo entrar no meu quarto uma tarde percebida apenas por mim, e tudo que atravessa esse fim de tarde vem e me faz respirar, respirar profundamente por não entender, olhar estaticamente por não entender, por não ouvir, por não saber ouvir ou dizer o que entra pela fresta desta janela. Penso num significado que nomeie esta sensação, não há, não encontro, por mais que percorra o vazio do meu pensamento, não encontro nele sinônimo para o transbordar das sensações. Como se tivessem me roubado as palvras, elas escapam à razão e aparecem diante dos meus olhos, os dedos escrevem o que não consigo pensar. Há algo que só vem quando não chamo, quando não penso... e demonstra claramente a minha incapacidade, retira meu nome, minhas posses, me deixa nu. A única ação, que pode ser dita minha, é esta leitura que faço enquanto este outro se diz. Como olhar no espelho, como enxergar esse lugar onde habito sem dar conta do endereço? É como ouvir com os olhos, que de repente se deparam com seu dono, sem reconhecê-lo, apenas sendo, ali, sem saber porque, fora de seu lugar.

Um comentário:

noname disse...

"Há algo que só vem quando não chamo, quando não penso..."
normal...acontece com todo mundo :)
Bela descrição de sensações Diego!
Parabéns!