segunda-feira, 16 de março de 2009

Livre

Nas últimas décadas do século 20, com o fim do ideal "socialista" e a consequente
hegemonia absoluta do capitalismo, este último, passou a controlar cada vez mais a vida do
seu rebanho. Com a popularização da TV, rádio, e mais atualmente com a internet, as
pessoas vivem numa espécie de "eternidade do agora". A Indústria Cultural promete a
felicidade instântanea a uma massa sedenta de desejos consumistas, desejos estes
implantados na mesma através do aluguel dos nossos olhos e ouvidos pela publicidade(obviamente nascida da própria indústria). Tendo este cenário aliado a uma mentalidade cada vez mais individualista, com aspirações moldadas pelo próprio sistema, a
sociedade caminha para a homogeneização completa dos individuos, com suas necessidades
sendo ditadas pela idéia do gozo a todo custo, alicerçada agora na passividade dos sujeitos,
que já não enxergam o inimigo, hoje invisível.

Isso porque não há mais inimigos visíveis, não mais como antes, quando havia um regime
ou um ditador. Hoje eles estão nas próprias estruturas, e nos dominam por meios
psicológicos, culturais, políticos e principalmente econômicos, regidos pelo nosso não tão
novo senhor: o capitalismo. Vivemos numa época onde o grau de perfeição dessa coisa
define o nosso comportamento, desde a hora em que acordamos até quando vamos nos
deitar.

E no meio deste caos extremamente perfeito, vejo a arte como uma das poucas formas de
resistência, sendo talvez a única capaz de enxergar o que poderia ser e que não é ainda,
despertando assim os desejos verdadeiros causados pelo estranhamento e emoção de tal
experiência. Mas é preciso crítica para desconstruir-se e perceber o que é humano no
mundo dominado pelas mercadorias. O imediatismo dos nossos tempos anda nos regulando
e afastando-a cada vez mais.

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Queria compartilhar com vocês um texto maravilhoso de um escritor boliviano que descobri ontem.


A MORTE PELO TATO (Jaime Sáenz)

I (fragmento)


Meu sonolento corpo finalmente desperta, e me vejo diante dos meus amigos mortos

e às vezes me levanto triste porque, por haver um muro à minha frente, por haver uma cerca ou um duende à minha frente,

eu não estaria triste nem pensaria em mim nem em ti nem neles

e assim saio encurvado para contemplar o interior da cidade e uso do tato desde minhas entranhas escuras

no secreto desejo de lá encontrar, encontrar o meio propício para fazer com que o mundo seja envolto pelo esquecimento

para que o esquecimento impere nas primeiras máscaras inventadas pela humanidade

para que o esquecimento seja a força motora e suprema e para que do esquecimento somente surja o esquecimento

— não podes ter idéia do esquecimento porque não conheces meus amigos mortos!

e para que no curso das idades o esquecimento chegue a gerar a solidão

para isso deverás estar presente naquela estrela

no rumo indeciso

no caos do olhar

de modo algum para determinar, e sim para que se justifique a razão inexorável do que houve e do que será

de modo que o harmonioso seja sempre harmonioso, hás de estar presente sem poder sabê-lo

e eu estarei presente e não poderei sabê-lo mas seremos o esquecimento e a solidão

porque já fomos esquecimento e solidão quando nada sabíamos — quando não tínhamos a noção da orelha e da dor

nem sede

eu te anuncio que sabemos e seremos

bem conhecido é o continente daqueles ou daquele ou dele que faz conjeturas com uma corcundinha

conhecemos as pessoas somente como são e não sabemos como não são

pesa-lhes a falta da capacidade de não ser, pois não sabem que podem não ser e ser

sabem-na em toda sua magnitude meus amigos mortos e falo deles com confiança e orgulho

são meus mestres

quem morreu diz que existiu eternamente antes de que eu existisse

sua morte e suas mortes me ensinam não somente que posso ser fabricante de açúcar senão marinheiro, relojoeiro, pintor, físico, geomante e muitas outras coisas

que posso e não posso afetar coma ou alegria, que posso ter ainda desconhecidas profissões

. . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Eu me escondo dos estranhos costumes — da atitude com que não se deve resumir uma tese adorável sobre as coisas simples e perfumadas

sou partidário das minhocas e dos peixes

das estrelas que cantam

guardo devoção pelo olhar das crianças

e gosto de desenhar quando chove

e quando me umedecem os olhos, é necessário poder falar o idioma secreto originado durante o triunfo das coisas

julgo conveniente louvar a essência daquele ancião e me deter quando o ajudante de homero lhe faz caretas descritivas

ao animal que passa fugaz ante o sorriso da velhinha do lintel

enfim, adoro as vozes claras, os trens, as cidades

e por tudo o que digo

adoro minhas entranhas escuras.

Fonte: http://confrariadovento.com/revista/numero23/phantascopia.htm

3 comentários:

noname disse...

belo texto Diego..
viver com simplicidade...essa devia ser a tônica da vida

flw

Diego Kehrle disse...

Esse texto abaixo do meu é milhões de vezes mais bonito, tu devia ler.

noname disse...

já li pow...
muito bom...
:)