
Trancada em minha torre de marfim, fatigada de minha solidão, presa em grades interiores; encontro-me à beira de um abismo, no limite de tudo, pressionada em todos os sentidos por mim mesma. Meus pés doem demasiadamente, não posso mais suportar: é hora de pular de uma vez ou criar asas - não sei de onde. Eis o dilema: descer ou subir, pular ou voar. Como sempre, a decisão não será minha: ou serei empurrada por um vento mais forte ou puxada por um instante de fraqueza. Se na vida não consigo viver, de que vale viver uma vida que eu não vivo? Se não consigo ser quem realmente sou, então não sou desse mundo. Se meus pés não tocam o chão, então esse chão não me pertence, ou eu não pertenço a esse chão. Se meu mais desesperado grito não alcança o mínimo decibel humano, então minha voz é estranha a esse planeta; meu idioma é outro, meu planeta é outro. Acho que fui enviada ao lugar errado. Se não consigo realizar minha missão aqui, assim, a eles, a elas, então minha missão não é aqui, mas talvez não tenha tanta certeza de que também não seja essa… Aí fica mais uma dúvida: minha certeza é feita de dúvidas e muitas de minhas dúvidas já são cheias de certeza. Quando não se escuta o que não se espera, não se consegue dar o primeiro passo assim tão fácil. Mas se a prece for previsível, de quê adianta então dirigi-la aos céus? Nessa hora é que Deus “brinca” conosco… Ou somos nós que “brincamos” com Deus? Quando as raízes viram pontes de hidrogênio e a ilha começa a se curvar, e as altas madrugadas começam a se tornar cheias demais, o alto preço que geralmente é pago já nem faz tanta diferença. Quando só se quer paz, só se encontra guerra. E se descobrem as sete chaves que guardam a chave da torre de marfim. Mas se um raio cairá sobre a cabeça do capacho, isso não é tão certo. Ou talvez seja... Se for, o mais certo é que vão guardar as chaves por muito tempo ainda. O que mais se precisa é de alívio imediato. Na hora da matemática o que mais se quer é ouvir o canto dos pássaros; quando se entende muita física nuclear, se percebe que basta entender o movimento de um quilópode. Não estamos preparados pra entender tantas coisas. É por isso que entendemos tudo e no fim não entendemos nada. Pelo menos nada que nos leve ao Reino. O Reino de cada um, o fim da jornada. O prêmio pela luta, o bálsamo para as dores. As dores que o mundo causa, seja ele seu ou não.
(Pesqueira, 05/05/2006)
Um comentário:
Li seu texto e achei lindo mas parece que faz tempo que você não escreve...Porque?
Você tem talento menina!
Beijos da tia escritora
Postar um comentário